Ixion - Polônia: Tapeçaria Contemporânea



 

Apresentação Artistas Participantes A Tapeçaria na Polônia
Obras

 


Apresentação

A freqüente troca de idéias entre a Casa Andrade Muricy e a comunidade polonesa tem propiciado a realização de alguns promissores projetos na área da cultura. Um dos elos dessa corrente é a artista Heliana Grudzien, descendente de poloneses, que estagiou durante alguns anos na Polônia, onde teve a oportunidade de manter estreitos contatos com a classe artística desse país de riquíssimas tradições culturais. No universo de seus interesses voltados à arte e ao artesanato, observou ela, atentamente, o trabalho desenvolvido por um grupo de profissionais especializados na preciosa técnica da tapeçaria artística.

O entusiasmo de Grudzien, diante do elevado nível técnico e artístico dessa produção - cuja qualidade tem sido amplamente reconhecida fora das fronteiras do país - despertou a atenção e contagiou os dirigentes da Casa Andrade Muricy. Desde então, estabeleceu-se um produtivo intercâmbio de informações entre os dois países, no sentido de possibilitar a apresentação de trabalhos de tapeçaria do grupo IXION em Curitiba, permitindo assim, que os paranaenses, que têm forte ligação com a cultura polonesa, tivessem a oportunidade de apreciar, de perto, a obra maior desses importantes artistas, que até hoje não haviam mostrado, no Brasil, um tão importante conjunto de trabalhos.

As raízes da tapeçaria contemporânea polonesa apoiam-se, basicamente, no forte e tradicional pilar da boa arte da tecelagem e no trabalho daqueles que souberam descobrir, nela, um meio de expressão artística extremamente consistente. E isso somente foi possível, por terem eles sabido distinguir, conscientemente, os rumos a serem seguidos, na fluida fronteira entre o útil e o artístico.

Já em 1962, na I Bienal Internacional de Tapeçaria, em Lausanne, artistas poloneses, entre eles Jolanta Owidzka e Wojciech Sadley, apresentaram trabalhos de nova geração, uma tapeçaria criativa, que ultrapassava as formas e técnicas tradicionais. Nesse certame específico, sempre estiveram presentes artistas como Maria Teresa Chojnacka, Zofia Bohdziewicz, Barbara Levittoux-Swiderska, Ewa Latkowska-Zychska e Stefan Poplawski, entre outros. Em pouco tempo a Polônia tornou-se o ponto de encontro dos artistas que se dedicavam a essa técnica.

A tapeçaria atual é, portanto, fruto de uma gradual evolução, na conquista de algo novo, daquilo que se convencionou chamar de arte da fibra. Foram os artistas que trabalhavam a fibra que se utilizaram de vários materiais não típicos, experimentais, como as matérias cruas, de características mais próximas da fibra. Foram ampliando sua abrangência até chegar a elementos pouco relacionados ao tecido, como materiais plásticos e orgânicos, metais e papel.

Foi criado em 1986 o Grupo IXION, reunindo artistas de diversas tendências e variadas opiniões criativas, com a finalidade de discutir, com profundidade, a tapeçaria contemporânea. Desde então, eles também têm mostrado sua obra no exterior, especialmente na França, Japão, Israel, Estados Unidos, Suíça e Holanda.

É justamente esse grupo que se propõe a apresentar na Casa Andrade Muricy um conjunto de obras que representam o melhor da tapeçaria contemporânea polonesa.

 

Artistas Participantes

1. Hanna Czajkowska 10. Delfina Krasicka
2. Maria Chojnacka 11. Lilla Kulka
3. Wlodzimierz Cygan 12. Ewa Latkowska-Zychska
4. Emilia Bohdziewicz 13. Barbara Levittoux-Swiderska
5. Anna Goebel 14. Joanna Owidzka
6. Wojciech Jaskólka 15. Jolanta Owidzka
7. Dobroslawa Kowalewska 16. Stefan Poplawski
8. Boguslaw Kowalewski 17. Wojciech Sadley
9. Jagoda Krajewska 18. Marta Gasienica-Szostak


A Tapeçaria na Polônia

A tapeçaria ou "a arte da fibra", como hoje é conhecida, é a vertente artística que, na Polônia, de maneira mais enfática mostra as relações entre a tradição e as tendências mais modernas dos nossos dias.

O termo "escola polonesa de tapeçaria" nasceu nos 60, quando, na Bienal de tapeçaria de Lausanne, Suíça, os artistas poloneses através das suas obras, introduziram novos métodos de pensamento e de experiência. O essencial daquele "novum" era o envolvimento do próprio autor na criação da tapeçaria, ao contrário do método de reproduzir pelo artesão, o projeto feito pelo artista pintor. Deste modo, o processo de criação da obra desenvolvia a invenção do artista, estimulando-o na descoberta de novos meios técnicos e novas matérias-primas, que, com seus efeitos inesperados, resultava em soluções de forma, relevo e cor cada vez mais expressivas em sua modernidade.

Esse afastamento do "gobelin" clássico iniciou o desenvolvimento mundial da pesquisa e o aparecimento de vários processos da arte que, deixando o tear tradicional e entrando no espaço das salas de exposições, tinham só uma coisa em comum: a matéria-prima, ou seja, a fibra. Daí o nome "arte da fibra", que une obras de diferentes princípios e construção. Lembremo-nos, porém, da destinação dessas obras. Elas se destinam à arquitetura, à decoração da habitação e a funções de utilidade pública, quando introduzem a poesia de mensagens, o jogo de luz, da forma e do espaço. Criam um ambiente especial: na sua proximidade sentimos um conforto íntimo.

A história da tapeçaria polonesa tem raízes profundas na tradição de utilização da tapeçaria na decoração e no vestuário, tanto em casas fidalgas e palácios de magnatas, como na arte popular. A localização da Polônia onde se cruzam os caminhos das culturas oriental e ocidental enriquece essa arte em técnicas, nomes e motivos provenientes de diversos países. Todos esses elementos se incorporaram, no decorrer dos séculos, à história da cultura polonesa, transformados pela imaginação do artista e do artesão pois ficaram impregnados com a forma polonesa de encarar a vegetação, a paisagem e a luz.

Nas exposições dos museus poloneses encontram-se coleções dos séculos XVIII e XX das assim chamadas "faixas de Sluck", peças de vestuário dos fidalgos, apaixonados pela riqueza da ornamentação da arte oriental. Existe também a coleção preciosíssima dos arrases flamengos que adornam o Palácio Real de Wawel em Cracóvia. Tudo isto é a prova da grande paixão dos imperadores e da sociedade polonesa pela arte de tecelagem, já no passado remoto. A riqueza dos diversas técnicas de arte popular inspirou um grupo de artistas, que em 1901, fundaram a associação "Arte Utilitária Polonesa", unindo os melhores artistas e entusiastas dessa categoria de arte. O objetivo da associação era a renovação do artesanato polonês. Os intelectuais atuavam à semelhança de John Ruskin e William Morris, criadores da corrente "Art & Craft" na Inglaterra e propagadores da idéia do resgate da importância do trabalho manual. Tinham também um motivo patriótico: cultivar as tradições na época em que o estado polonês não existia no mapa da Europa.

Assim como o grande compositor Frederyk Chopin, impulsionado pela saudade do país, procurava motivos populares de "mazurka" e "kujawiak", os artistas pertencentes à associação "Workshop de Cracóvia", existente nos anos 1913-26, tentavam manter o caráter polonês das suas tapeçarias, ao usar motivos e técnicas da arte popular.

O desenvolvimento da arte da tecelagem nas escolas superiores da Polônia independente, após a Grande Guerra Mundial, deu resultado excelentes tanto no país como em âmbito internacional. Na exposição mundial em Paris, o professor Mieczyslaw Szymanski ganhou medalha de ouro, atribuída a duas tapeçarias, feitas em conjunto com artista Maria Bujakowa sobre a vitória, em Viena de Jan III Sobieski, rei da Polônia, que em 1683, a frente de seu exército, impediu a invasão das tropas turcas na Europa. Essas tapeçarias são consideradas verdadeiros tesouros artísticos do país.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Seção de Tapetes e Gobelins da Academia de Belas Artes, em Varsóvia passou a ser dirigida pelo prof. Mieczyslaw Szymariski. A Seção de Tapeçaria era dirigida pela grande entusiasta da arte de tecelagem popular, profa. Eleonora Plutynska, e a Seção de Jacarde pela profa. Hanna Sledziewska. Na Academia de Artes Plásticas em Cracóvia, a Seção de tapeçaria era chefiada pelo prof. Stefan Galkowski, famoso pelos gobelins decorativos, figurativos. Na Academia de Belas Artes de Gdansk, o setor de tapeçaria era dirigido pela profa. Józefa Wnukowa, que introduziu a técnica de filme-impresso em padrões de grande dimensão, que lembrava o tipo de tapeçaria pintada da época da Renascença. Na Academia de Poznan o prof. W. Kintropf dirigia com grande eficiência o ensino de tecelagem tipo jacarde e a Escola Superior de Belas Artes de Lódz ensinava, com sucesso, as formas de cooperação com a indústria.

Os estudos sobre tapeçaria, sendo incluídos no programa de escolas superiores, davam o prestígio devido à arte a esta bela modalidade, tratada antes como artesanato e não como expressão artística.

Em Varsóvia, um centro importante de desenvolvimento da arte de tecelagem era a "oficina experimental" da Associação dos artistas Plásticos Poloneses estabelecida pela artista de grande talento e modéstia, Maria Laszkiewiczowa. No sul da Polônia, existe até hoje a escola fundada pela grande atriz polonesa Helena Modrzejewska, onde os jovens aprendem as técnicas e a maneira de amar a arte da fibra, seguindo o programa elaborado pelas artistas Maria Bujakowa e Krystyna Szczepanowska.

Todos os artistas e pedagogos aqui mencionados contribuíram muito para a criação da "Escola Polonesa de Tapeçaria" através da sua influência em algumas gerações de artistas que, junto com eles, começaram a expor suas obras em mostras nacionais e internacionais. Nos anos 60 e 70 o êxito dos artistas poloneses confirmaram a sua primazia na área da arte da fibra.

A grande carreira internacional de Magdalena Abakanowicz, que atualmente se volta para a escultura, foi iniciada nas exposições da Bienal de Tapeçaria de Lausanne e da VIII Bienal de Arte em São Paulo (1965) onde lhe foi atribuída medalha de ouro.

 


A influência da tapeçaria polonesa na atividade de artistas brasileiros, que nos anos 70 e 80 fizeram estágios na Polônia, provocou o desenvolvimento da arte de Zoravia Betiol, de Porto Alegre e de Carlos Obino, do Rio de Janeiro. Na última Trienal de Lódz, o Brasil foi representado pela composição "The Way Life Is" de Shirley Paes Leme. Uma certa dose de romantismo e de contradição expressa na mensagem desta obra faz lembrar que Shirley estudou em Tucson, Arizona, onde a Seção de Tapeçaria é dirigida pela profa. Gayle Wimmer, formada pela Academia de Belas Artes de Varsóvia, na cátedra do prof. Wojciech Sadley.

A profª. Eleonora Plutynska tinha um dito preferido: "O mais importante é a continuação, porque esta é a ordem das coisas".

Essa continuação no desenvolvimento da arte mundial de tecelagem é sedimentada pelas confrontações internacionais em Lódz, Budapeste, Kyoto e outras numerosas cidades da Europa e de ambas as Américas. A arte da fibra liga com a linha da amizade artistas e nações. Espero que a nossa exposição contribua para o estreitamento dos laços que unem a Polônia e o Brasil.


Varsóvia, agosto de 2000
Jolanta Owidzka



Obras

Anna Goebel
Do ciclo "Rastos Guardados I"
Técnica própria/folha de ácer

Wlodzimierz Cygan
"1999", 1998
Gobelin

Lilla Kulka
"Quo Vadis", 1987
Técnica mista

Wojciech Sadley
"Mortalha III", 2000
Técnica própria, pintura sobre seda


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